
Quem procura por normas ABNT para resenha costuma esbarrar num detalhe pouco divulgado: não existe uma NBR específica para resenha. O que existe são as normas gerais de apresentação de trabalhos acadêmicos, de citação e de referência, que se aplicam a ela como se aplicam a qualquer outro texto entregue na faculdade. Este guia mostra o que a norma efetivamente exige, qual é a estrutura esperada, a diferença entre resumo e resenha crítica, e como referenciar a obra que você está comentando.
O que as Normas ABNT para Resenha realmente determina
Vale desfazer o mal-entendido logo. Não procure por uma norma de resenha, porque você não vai achar. As referências que se aplicam ao seu texto são outras três, e conhecê-las resolve a maior parte das dúvidas de formatação.
- Apresentação de trabalhos acadêmicos. Cuida de margens, fonte, espaçamento, paginação e estrutura geral. A NBR 14724 teve nova edição publicada em dezembro de 2024, que substituiu a de 2011.
- Citações. A NBR 10520, atualizada em 2023, define como citar direta e indiretamente, quando recuar o texto e como indicar a autoria no corpo do trabalho.
- Referências. A NBR 6023 define a forma da entrada bibliográfica, que na resenha é geralmente uma só, a da obra comentada.
Um alerta prático: muitos manuais institucionais ainda reproduzem as versões antigas dessas normas. Quando houver divergência, o manual da sua faculdade é o que vale na correção, porque é ele que o professor usa.
Formatação: o que aplicar na prática
| Elemento | Padrão usual |
|---|---|
| Papel | A4, branco |
| Margens | 3 cm à esquerda e superior, 2 cm à direita e inferior |
| Fonte | Tamanho 12 no corpo, menor e uniforme em citações longas e notas |
| Espaçamento | 1,5 no texto, simples nas citações longas, notas e referências |
| Recuo de parágrafo | 1,25 cm na primeira linha |
| Citação com mais de três linhas | Recuo de 4 cm, sem aspas, fonte menor, espaçamento simples |
| Alinhamento | Justificado |
| Extensão | Geralmente de 2 a 5 páginas, conforme o professor pedir |
Resenha costuma ser um texto curto, e por isso raramente leva capa, sumário ou outros elementos pré-textuais. Quando o professor pede capa, ela segue o mesmo padrão dos demais trabalhos. Na dúvida, uma folha de rosto simples com instituição, curso, seu nome, título e data resolve sem parecer excessiva.

Resenha, resumo e fichamento não são a mesma coisa
Essa confusão é a maior causa de nota baixa nesse tipo de trabalho. O aluno entrega um resumo caprichado e recebe a observação de que faltou análise crítica.
- Fichamento: registro de leitura para uso próprio. Reúne trechos, citações e anotações organizadas. Não tem público nem argumento.
- Resumo: síntese fiel do conteúdo, sem juízo de valor. Quem lê fica sabendo o que o texto diz, e nada além disso.
- Resenha descritiva: apresenta a obra, o autor e o conteúdo de forma organizada, com pouca ou nenhuma avaliação. É o formato pedido em disciplinas introdutórias.
- Resenha crítica: apresenta a obra e a avalia com argumento fundamentado. Quem lê fica sabendo o que o texto diz e o que ele vale, e por quê. É o formato mais cobrado na graduação.
O teste rápido para saber se você escreveu uma resenha ou um resumo: procure no seu texto uma frase que apresente a sua avaliação com justificativa. Se não houver nenhuma, você escreveu um resumo. Avaliar não significa dizer que gostou; significa apontar, com base em algo, onde o autor convence e onde a argumentação fica frágil.

A estrutura da resenha, parte por parte
A resenha é um texto corrido, sem numeração de seções na maioria dos casos, mas com uma organização interna reconhecível. As proporções abaixo consideram um texto de três páginas.
Referência completa da obra no topo
Antes do texto, a entrada bibliográfica completa do que está sendo resenhado. É o que permite ao leitor identificar exatamente a edição comentada. Alguns professores pedem também o número total de páginas da obra.
Credenciais do autor
Um parágrafo curto sobre quem escreveu: formação, área de atuação, outras obras relevantes e a corrente teórica em que se situa. Isso não é enfeite. Situar o autor prepara a avaliação que virá depois, porque explica de onde ele fala. Cerca de dez por cento do texto.
Apresentação do conteúdo
A síntese da obra: tese central, como o argumento se organiza, quais são as partes principais e que método o autor usa. Cerca de quarenta por cento do texto. Evite descrever capítulo por capítulo em sequência, o que produz um índice comentado em vez de uma síntese. Organize por ideias, não por sumário.
Avaliação crítica
O núcleo da resenha, com cerca de quarenta por cento do texto. Aqui você avalia, e cada avaliação precisa de fundamento. Aponte a contribuição da obra, a solidez da argumentação, a adequação do método, a atualidade dos dados e as lacunas. Compare com outros autores quando puder, porque comparação é a forma mais forte de fundamentar juízo.
Recomendação final
Um parágrafo dizendo para quem a obra é útil e em que situação. Cerca de dez por cento. Recomendação vaga do tipo é uma leitura interessante não acrescenta nada; prefira indicar público e uso, como estudantes iniciantes de determinada área ou pesquisadores que trabalham com certo problema.
Como escrever a parte crítica sem parecer arrogante
Muito aluno trava aqui, e o motivo é compreensível: parece presunçoso criticar um autor consagrado. A saída não é evitar a crítica, é fundamentá-la. Existem quatro caminhos que funcionam mesmo para quem está começando.
- Recorte declarado. Apontar o que a obra deliberadamente deixa de fora não é acusação, é descrição. O autor analisa determinado contexto e não trata de outro, o que limita a aplicação das conclusões a situações diferentes.
- Datação. Uma obra escrita antes de certa transformação do campo não poderia considerá-la. Isso permite avaliar atualidade sem desqualificar o trabalho.
- Comparação. Colocar a obra ao lado de outra que trata do mesmo problema por caminho diferente. A divergência entre autores é terreno legítimo e seguro para o resenhista.
- Coerência interna. Verificar se as conclusões decorrem do que foi apresentado. Se o autor afirma algo mais forte do que os dados sustentam, apontar isso é leitura atenta.
Evite dois extremos. O elogio integral, em que tudo é brilhante e nada é questionado, sinaliza leitura superficial. A demolição gratuita, em que o texto é ruim sem que se diga por quê, sinaliza a mesma coisa. Crítica boa é específica: aponta a página, o argumento e o motivo.

Como referenciar a obra resenhada
A entrada segue o padrão de referências, com sobrenome do autor em maiúsculas, prenome, título em destaque, subtítulo sem destaque, edição a partir da segunda, local, editora e ano. Quando você citar trechos ao longo do texto, use o sistema autor e data com a página, e mantenha o mesmo sistema do começo ao fim.
Um detalhe que gera correção: como a obra resenhada é o objeto do trabalho, ela precisa aparecer tanto no topo quanto na lista de referências, se houver lista. E se você citar outros autores na parte crítica, todos eles entram nessa lista. Os padrões completos estão no nosso guia de referências ABNT e no material sobre citações ABNT.
Roteiro de leitura antes de escrever
Resenha boa se decide na leitura, não na escrita. Quem lê sem método acaba com trinta páginas de trechos copiados e nenhuma ideia sobre o que dizer. Um roteiro simples resolve, e leva menos tempo do que reler o livro inteiro depois.
- Antes de abrir o texto, leia sumário, prefácio e orelha. Isso já revela a tese e a organização.
- Na primeira leitura, marque apenas duas coisas: onde o autor enuncia a tese e onde apresenta as evidências principais.
- Ao final de cada capítulo, escreva uma frase sua respondendo o que este capítulo defende. Uma frase, não um parágrafo.
- Anote separadamente os pontos em que você discordou, estranhou ou sentiu falta de algo. Essa lista vira a parte crítica.
- Ao fim, tente enunciar a tese do livro inteiro em uma frase. Se não conseguir, releia a introdução e a conclusão.
Com esse material em mãos, a escrita leva algumas horas em vez de dias, porque você já tem síntese e avaliação separadas. O erro contrário, que é começar a escrever com o livro aberto ao lado, quase sempre produz paráfrase sequencial.
Modelo comentado: como fica na prática
Ver a diferença entre uma frase fraca e uma forte ajuda mais do que qualquer regra. Os pares abaixo tratam do mesmo ponto de uma resenha imaginária.
Fraco: o livro é muito bom e traz informações importantes sobre o tema.
Não diz nada. Bom em quê, importante para quem, comparado a o quê? Uma frase assim pode ser colada em qualquer resenha de qualquer obra.
Forte: a principal contribuição da obra está em reunir, em um único volume, dados que até então estavam dispersos em relatórios setoriais, o que a torna útil como ponto de partida para quem inicia pesquisa na área.
Agora existe uma afirmação específica, um motivo e um público. O mesmo vale para a crítica negativa. Dizer que a obra é datada não sustenta nada; dizer que os dados apresentados vão até determinado período e que transformações posteriores no setor não são consideradas, o que limita a aplicação das conclusões ao cenário atual, é crítica fundamentada.
Uma dica de redação: sempre que escrever um adjetivo avaliativo, pergunte-se por quê e responda na mesma frase ou na seguinte. Se não houver resposta, o adjetivo sai.
Resenha acadêmica e resenha de jornal não são iguais
Confusão comum em quem se inspira em resenhas de cadernos culturais. A resenha jornalística busca o leitor comum, admite ironia, opinião pessoal explícita e estilo mais livre, e frequentemente evita entregar demais do conteúdo. A acadêmica busca o leitor especializado, exige fundamentação em cada juízo, apresenta o conteúdo com clareza e situa a obra no debate da área.
Isso não significa que o texto acadêmico precise ser sem graça. Clareza, ritmo e boas transições valem em qualquer gênero. O que muda é a exigência de sustentação: na resenha acadêmica, toda afirmação avaliativa precisa se apoiar em algo verificável no próprio texto resenhado ou na literatura da área.
Erros que mais aparecem
- Resenha sem crítica. O erro campeão. Entrega-se um resumo bem escrito e falta a avaliação fundamentada.
- Primeira pessoa em excesso. Eu achei, eu gostei, na minha opinião. Prefira construções impessoais ou a primeira pessoa do plural, conforme o professor orientar, e sustente o juízo em argumento.
- Descrição capítulo a capítulo. Vira índice comentado e ocupa o espaço que deveria ser da análise.
- Citações longas demais. Em um texto de três páginas, dois blocos recuados já são muito. A voz predominante precisa ser a sua.
- Falta da referência completa no topo. Detalhe simples que custa ponto com frequência.
- Confundir o autor da obra com o autor citado por ele. Atribuir ao resenhado uma ideia que ele apenas menciona de outro.
- Escrever sobre o que se leu sobre o livro. Resenhar a partir de resumos de internet produz erros factuais que quem conhece a obra identifica de imediato.

Checklist antes de entregar
- A referência completa da obra está no topo do texto.
- Existe um parágrafo situando o autor.
- A síntese está organizada por ideias, não por capítulos.
- Existe pelo menos uma avaliação com justificativa explícita.
- A crítica aponta página ou trecho específico.
- A recomendação final indica público e uso.
- As citações estão no formato correto, com autor, ano e página.
- A formatação segue o padrão pedido pelo professor.
- O texto está dentro da extensão solicitada.
Como situar a obra no debate da área
Esse é o movimento que separa a resenha de graduação da resenha que parece profissional, e ele custa pouco esforço. Situar significa responder a uma pergunta: onde este livro se coloca em relação ao que já se escreveu sobre o assunto?
Não é preciso dominar o campo inteiro. Basta localizar duas ou três referências que o próprio autor cita com frequência e verificar se ele concorda, discorda ou amplia. Se a obra dialoga com uma corrente específica, diga isso. Se ela responde a uma crítica que outro autor havia feito, mencione. Uma frase como o argumento se apoia na tradição que trata determinado fenômeno como processo, e não como evento isolado, já demonstra leitura situada.
Onde encontrar esse material sem ler mais cinco livros: a introdução costuma anunciar com quem o autor está conversando, e as notas de rodapé revelam as filiações teóricas. Vinte minutos folheando esses dois elementos rendem o parágrafo de contextualização inteiro.
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Existe uma NBR específica para resenha?
Não. Aplicam-se as normas gerais de apresentação de trabalhos acadêmicos, de citação e de referência. A estrutura da resenha vem da tradição acadêmica e das instruções do professor, não de uma norma técnica própria.
Quantas páginas deve ter?
Entre duas e cinco páginas na maioria das disciplinas. Resenhas publicadas em periódicos costumam ficar entre três e seis. Se o professor não especificou, três páginas bem escritas é uma escolha segura.
Precisa de capa e sumário?
Normalmente não. Por ser texto curto, a resenha costuma dispensar elementos pré-textuais. Quando o professor pede capa, ela segue o mesmo padrão dos demais trabalhos do curso.
Posso escrever em primeira pessoa?
Depende da orientação recebida. A resenha admite mais presença do resenhista do que outros gêneros acadêmicos, mas o uso excessivo enfraquece o texto. O juízo precisa vir de argumento, e não de preferência declarada.
Dá para resenhar um artigo ou um filme?
Sim. A estrutura é a mesma, mudando apenas o formato da referência da obra. Em resenha de filme ou de obra audiovisual, a apresentação do conteúdo costuma ser mais breve e a análise ganha espaço.
Preciso ler a obra inteira?
Sim. Resenha feita a partir de resumos de terceiros produz erros que quem conhece o texto identifica na primeira página, e costuma reproduzir interpretações equivocadas que circulam na internet.
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